SÃO PAULO (Reuters) – A Azul, terceira maior companhia aérea brasileira, estreou com pompa na Bovespa nesta terça-feira, após uma oferta inicial de ações (IPO) que movimentou 2 bilhões de reais e marcou mais um capítulo na retomada das captações no mercado acionário brasileiro.

O antigo pregão viva-voz da bolsa paulista recebeu decoração ao estilo da companhia, incluindo os salgadinhos oferecidos pela empresa em seus voos, com recepcionistas vestindo o uniforme da linha aérea dando boas-vindas àqueles que atravessavam um túnel de embarque para acompanhar o tradicional toque do sino que dá início às negociações.

O fausto também se traduziu em números. A operação atribuiu um valor de mercado de 2,4 bilhões de dólares (7,5 bilhões de reais) para a Azul. Além disso, a transação marcou o maior IPO desde a oferta da BB Seguridade em 2013, bem como a primeira listagem dupla de companhia brasileira – São Paulo e Nova York – desde a oferta do Santander Brasil em 2009. Ainda, a ação chegou a avançar mais de 9 por cento no melhor momento do dia em relação ao preço do IPO, de 21 reais, encostando no teto da faixa indicativa de 23 reais.

Segundo informaram fontes do mercado à Reuters ainda na segunda-feira, a demanda pela oferta superou cinco vezes o volume ofertado, considerando o preço de 21 reais por ação.

“Nós estamos muito satisfeitos com o resultado”, afirmou o presidente da Azul, Antonoaldo Neves, acrescentando que a operação deixa a empresa criada em 2008 pelo empresário David Neeleman, mais forte para enfrentar os desafios do dia a dia.

Desafios que não são poucos uma vez que o setor no país ainda passa por fraqueza de demanda em razão da recessão brasileira que já dura dois anos. Sobre isso, o presidente da Azul, que estava limitado pelo período de silêncio do IPO, comentou apenas que a empresa “está bastante segura” de que nas condições atuais sua equação demanda/oferta está equilibrada.

Uma semana antes, o presidente da rival Avianca Brasil, Frederico Pedreira, havia afirmado que o setor ainda tem espaço para reduzir a oferta de assentos, já que a taxa de ocupação de voos da indústria estava abaixo de 80 por cento.

Para o presidente da Azul, o resultado do IPO representa um momento importante, porque sinaliza que investir no Brasil voltou a ser atrativo. “Demonstra confiança dos investidores na retomada da economia e na superação da maior crise que nosso país já viveu”, afirmou o executivo à plateia que encheu o salão na B3.

Os IPOs mais recentes na bolsa brasileira ocorreram em fevereiro, com a locadora de veículos Movida e o laboratório Instituto Hermes Pardini, mas as ofertas ocorreram em volumes mais tímidos, de 645,17 milhões e 877,7 milhões de reais, respectivamente.

TUDO AZUL?

Um dos focos dos investidores que apostaram no IPO da Azul é o programa de fidelidade de 7 milhões de clientes da companhia, TudoAzul, mas Neves não deu detalhes sobre os planos da empresa nesta frente. As rivais Gol e TAM há anos exploram seus programas de fidelidade por meio da criação das empresas Smiles e Multiplus.

No prospecto do IPO, a Azul disse que busca seguir “investindo no crescimento do TudoAzul e avaliando oportunidades para expandir o valor desse ativo estratégico”.

A listagem da Azul adiciona, na bolsa brasileira, um novo concorrente em um setor formado apenas Gol desde 2012, quando a TAM saiu da bolsa após a fusão com a Latam.

Por volta das 14:50, os papéis da Azul eram negociados a 22,46 reais, em alta de quase 7 por cento, enquanto os ADSs da empresa em Nova York tinham valorização de 7,5 por cento. Já a Gol mostrava ganho de 7,1 por cento, a 10,36 reais.

No radar dos investidores do setor está o anúncio do governo brasileiro de permitir a abertura de 100 por cento do capital das companhias aéreas nacionais a estrangeiros. A Reuters antecipou a informação na véspera, relatando que o governo federal irá editar nesta terça-feira medida provisória sobre o tema.

Na visão de Neves, é muito cedo para avaliar a MP, citando que essa análise dependerá de como virá a regulamentação. “É importante que seja feita de forma abrangente, olhando todas as variáveis que impactam o setor, não só capital.”

O presidente da associação de companhias aéreas, Abear, Eduardo Sanovicz, também presente no evento da Azul, destacou que não há uma concepção unificada no setor sobre a MP, mas que, no conceito geral, “é sempre positivo um país ter uma estrutura mais aberta, mais amigável para receber capital mais barato”.

TURBULÊNCIA

A estreia das ações da Azul não teve exatamente um voo de cruzeiro. A previsão era de que as ações começassem a negociar no nível 2 da Bovespa na última sexta-feira, mas a operação foi suspensa um dia antes pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que apontando irregularidades, como divulgação de materiais de apresentação da operação na Internet.

O IPO da Azul também ocorreu após três tentativas. A última, em junho de 2015, tinha sido abortada, assim como das primeiras vezes, pelo cenário adverso do mercado na época.

No evento da Azul na bolsa, o presidente da B3, Edemir Pinto, afirmou que 2017 deve encerrar com 17 ofertas de ações entre operações de abertura de capital ou ofertas subsequentes, com o valor movimentado no total podendo superar sua estimativa de 25 bilhões de reais.

Para que isso se confirme, ele vê como essencial a aprovação da reforma da Previdência, que ajudará na retomada da confiança, principalmente de investidores estrangeiros. “Dando a esses investidores a reforma…vamos ter uma avalanche de investimento estrangeiro no Brasil a partir do segundo semestre.”

(Com reportagem adicional de Guillermo Parra-Bernal, edição Alberto Alerigi Jr.)

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